quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Mira - Rio


       Ao chegar ao Colégio Mira-Rio, na Avenida D. Vasco da Gama, cumpria sempre o mesmo ritual. Primeiro, como mandam as regras, cumprimentava o Santíssimo Sacramento, com uma pausada genuflexão, acompanhada por um acto de fé e de amor a Jesus, presente no Sacrário. Depois, invariavelmente, dirigia-me para o anexo gabinete do capelão e, ao chegar aí, o meu primeiro gesto era o de abrir totalmente as persianas. E mirar o rio.

       Nunca me cansei de olhar para aquela nesga de Tejo, aquele traço azul na paisagem urbana salpicada por algumas árvores e centrada na torre de Belém, tendo à esquerda o majestoso Cristo-Rei. Aquele bocadinho de rio, que se divisava da minha discreta vigia, enchia-me a alma, porque é no mar que o céu se espelha e cada um de nós é um rio que escorre, bonançoso ou em sobressalto, para a foz que é Deus.

       Mira-Rio. Se esse era o panorama exterior, era outra a imagem da casa, sempre em juvenil alvoroço, num permanente rebuliço, de uma constante algazarra tão cheia de vida, tão animada. Era o outro rio, o rio humano das professoras, funcionárias e das alunas em tropel pelas escadas acima e abaixo, qual cascata permanente, sempre a jorrar.

       E eu, pastor de almas, naquela atalaia que era o confessionário onde, uma a uma, as alunas iam aparecendo, umas para não mais voltar, outras muitas para liberrimamente se deixarem prender pelo suave jugo do amor de Cristo. Deus sabe das lágrimas e dos sorrisos que aquelas paredes testemunharam, dos gritos sussurrados em confidência, das alegrias e tristezas partilhadas, dos ideais martelados naquela forja de almas temperadas no fogo do Espírito Santo. Deus sabe!

       Olho de novo o Tejo, mas não o vejo, porque o meu olhar perde-se na lonjura dos tempos, nas gerações de alunas que passaram pelo colégio, deixando tantas saudades e de lá levando ensinamentos para a vida e amizades para sempre. A saudade não é vã nostalgia, mas a presença perene de um passado que, no presente, projecta o futuro. Porque recordar não é apenas viver: é também rezar, amar e sonhar. É um acto de fé, de caridade e de esperança.

       Mira-Rio. As margens permanecem firmes, sempre as mesmas, mas o rio avança, imperturbável, em direcção ao mar. Queira Deus que o farol que este colégio é ilumine todas as pessoas que por aqui passaram no seu caminho para o Além, onde todas as almas hão-de desaguar.

       P. Gonçalo Portocarrero de Almada