Lisboa, 4 Novembro 2015
Queridas Antigas Alunas:
Em Junho último, ao fazer 65
anos, toda a gente soube que eu iria deixar o Mira-Rio, para me dedicar a
outras tarefas familiares a partir deste novo ano letivo. Alguns dias depois, a
Ana Teresa Seixas da Fonseca quis ter a amabilidade de me convidar a vir falar
às antigas alunas, em data próxima do Dia do Colégio, e pediu-me que escolhesse
um tema. Em fim de carreira, ocorreu-me que poderia ser “Lessons learned – algumas histórias e recordações” e assim,
reencontrando um grupo de cerca de 30 queridas “senhoras crescidas” e algumas
professoras, para além do simpático convívio e jantar no Mira Rio I, ainda tive
o privilégio de as ouvir contar bonitas recordações da vida no colégio e de receber
umas lindas flores e um filme-surpresa muito engraçado.
Hoje pedem-me o resumo do que
disse nessa noite. Não sei se consigo, mas vou tentar, como forma de renovar o
meu agradecimento a todas, sobretudo à Direção da Associação de Antigas Alunas
e a todas as presentes!
Ao longo de uma vida dedicada ao
ensino e Educação – que começou a 25 novembro 1975 e acabou agora em Junho
2015, embora com algumas interrupções e mudanças de trabalho – como devem
calcular, as recordações e lições estudadas e aprendidas são muitas, embora algumas
se escondam e confundam já “nas brumas da memória”. Escolhi
três e, por brincadeira, intitulei-as em inglês:
1. “admit your
mistakes and be sorry for them”; 2. “connect the dots”; 3. “ don’t let the Sun
go down upon your wrath!”
Começando pela primeira, quis
pedir desculpa pelos erros cometidos, não só em termos humanos na relação com
as alunas (não disse, mas ainda me lembro com remorso sincero do dia bem longínquo
em que obriguei uma aluna com dificuldades a ir ao quadro escrever uma qualquer
coisa sem importância e a cena terrível de nervos que provoquei com a minha
“insensibilidade”, ou talvez crueldade…só porque eu tinha dito que toda a gente
tinha de ir ao quadro…what for??? I’m so sorry, my dear girl…). Quis
explicar que por mais humilhante que seja, corrigir e pedir desculpa por erros
cometidos é a melhor ponte que podemos construir…dei exemplos de palavras que
aprendi no colégio com as alunas ( “asshole”, “awesome…”) e foi uma risota
geral, quando pedi desculpa por tantas vezes ter escrito “homeworks” (quando a
palavra só se usa no singular…enfim!!!) esperando com isso não ter prejudicado
as vossas carreiras profissionais…
A segunda lição diz respeito às
palavras de Steve Jobs (fundador da Apple),
quando já com um cancro e perto da fase
terminal, foi homenageado numa Universidade e disse que só então conseguia
compreender, ao olhar o passado, como tudo se relacionava e tinha contribuído
para tudo quanto tinha conseguido realizar. Quando também eu olho para a minha
juventude, adolescência, infância, a partir destes sinais externos de velhice –
as minhas rugas, o peso, os brancos, etc…- encontro mil conexões que não param
de me surpreender e maravilhar, tornando-me mais consciente do muito que tenho
de agradecer a Deus…e contei-lhes várias coisas: uma certa viagem aos EUA em 31
de Agosto de 1978 (nunca mais lá voltei) com o meu filho mais velho, então com
5 anos, em que ficamos ao lado de um americano, Robert Nesnick (falecido há
dois ou três anos), um homem com uma historia de vida incrível, que se
converteu e quis vir viver em Portugal para compensar os erros passados e
ajudar a divulgar a mensagem de Fátima e as vidas dos três pastorinhos….Também
para ele esse dia foi a última vez que foi aos EUA, à sua terra natal (se
alguém quiser conhecer a história completa, digam-me fatimafonsecan@gmail.com que eu
envio-vos um texto mais pormenorizado). Foi esse encontro que me ajudou à minha
própria “conversão” (as nossas vidas estão cheias delas) e me fez abrir o
coração e a razão, quando 15 dias depois, conheci a minha amiga Maria Alice,
numerária do Opus Dei, que me deu a conhecer horizontes e paisagens
sobrenaturais nunca antes imaginadas… durante o estágio de professora de inglês
e alemão no liceu Rainha D. Leonor. Sem todos esses encontros, só aparentemente
casuais(!), nunca teria vindo parar ao Mira Rio, nem teria tido a querida e
numerosa família que tenho…Depois contei como a morte da vossa antiga colega
Marta Falcão (do ano da atual professora e ex-aluna Inês Salis Amaral), num
trágico acidente de avião na Austrália, me fez compreender de forma claríssima
que ser professora de Religião e preceptora eram as minhas funções mais nobres e valiosas
no colégio, porque na altura de o avião se despenhar, estou certa de que talvez
alguma coisa das nossas muitas conversas sobre Fé lhe pudessem ter servido de passaporte para a Eternidade.
Não falei do suicídio de um aluno de outra escola no meu ano de estágio, nem da
doença da Joana Sines Fernandes e da sua curta mas marcante passagem pelo
colégio; também não falei de muitas outras coisas, como por ex. das nossas
canções em inglês com letras particularmente tocantes como “Day by day, oh dear Lord, three things I
pray: see Thee more clearly, love Thee more dearly, follow Thee more nearly…”)…enfim,
são muitos os acontecimentos do passado e muitas as pessoas com quem nos
cruzamos na vida e nos vão marcando de forma indelével…a vida no colégio
marcou-me profundamente, e sinto-me muito grata a todos por isso!
Por fim, a terceira e última lição
tem a ver com uma frase de S. Paulo, numa das suas cartas, “Don’t let the Sun
go down upon your wrath (não deixes que o sol se ponha sobre a tua ira)”, que
encontrei em Londres, há muitos anos, e que se tornou como que um lema que não
quero esquecer, porque como dizia S. João da Cruz “ no entardecer da vida
seremos julgados pelo Amor”. Hoje, estou nesse entardecer e na curva
rapidamente descendente, enquanto muitas de vocês estão em plena maturidade.
Olho para trás, olho para o lado, olho para dentro e verifico que todos
perdemos muito tempo com zangas, conflitos, desgostos, nós na garganta, coisas
que nos são difíceis de perdoar, ou de pedir perdão, e que nos envenenam a vida
familiar, profissional, etc, em vez de enchermos o nosso dia a dia de pequenos
gestos que se fazem por Amor a Deus e ao próximo. S. Josemaria Escrivá e todos
os outros santos, mais antigos e mais recentes, ensinam-nos que o único Caminho
que leva à Verdade e à Vida Eterna é o do Amor.
Não disse mais nada de especial,
que me lembre. Terei dito outras coisas normalíssimas, mas no final, foi
comovente, irmos todas à Capela do Mira Rio 1 rezar uma breve oração e cantar
uma música que a Terezinha Caldeira Coelho recordava dos tempo do colégio!
Há no entanto, uma frase de S.
Josemaria, que gostaria de aqui deixar para todas, porque me tocou profundamente em momentos em que
tudo me cansava e me parecia tão difícil de aguentar… “ antigamente,
descascavas batatas; agora, santificas-te, descascando batatas…”
Um beijo e um abraço cheio de
amizade e votos de felicidades para todas! Até sempre e mais um grande Obrigado,
Fátima Fonseca