domingo, 8 de novembro de 2015

Lessons Learned - algumas histórias e recordações!



Lisboa, 4 Novembro 2015


Queridas Antigas Alunas:

Em Junho último, ao fazer 65 anos, toda a gente soube que eu iria deixar o Mira-Rio, para me dedicar a outras tarefas familiares a partir deste novo ano letivo. Alguns dias depois, a Ana Teresa Seixas da Fonseca quis ter a amabilidade de me convidar a vir falar às antigas alunas, em data próxima do Dia do Colégio, e pediu-me que escolhesse um tema. Em fim de carreira, ocorreu-me que poderia ser “Lessons learned – algumas histórias e recordações” e assim, reencontrando um grupo de cerca de 30 queridas “senhoras crescidas” e algumas professoras, para além do simpático convívio e jantar no Mira Rio I, ainda tive o privilégio de as ouvir contar bonitas recordações da vida no colégio e de receber umas lindas flores e um filme-surpresa muito engraçado.

Hoje pedem-me o resumo do que disse nessa noite. Não sei se consigo, mas vou tentar, como forma de renovar o meu agradecimento a todas, sobretudo à Direção da Associação de Antigas Alunas e a todas as presentes!

Ao longo de uma vida dedicada ao ensino e Educação – que começou a 25 novembro 1975 e acabou agora em Junho 2015, embora com algumas interrupções e mudanças de trabalho – como devem calcular, as recordações e lições estudadas e aprendidas são muitas, embora algumas se escondam e confundam já “nas brumas da memória”. Escolhi  três e, por brincadeira, intitulei-as em inglês:

1. “admit your mistakes and be sorry for them”; 2. “connect the dots”; 3. “ don’t let the Sun go down upon your wrath!”

Começando pela primeira, quis pedir desculpa pelos erros cometidos, não só em termos humanos na relação com as alunas (não disse, mas ainda me lembro com remorso sincero do dia bem longínquo em que obriguei uma aluna com dificuldades a ir ao quadro escrever uma qualquer coisa sem importância e a cena terrível de nervos que provoquei com a minha “insensibilidade”, ou talvez crueldade…só porque eu tinha dito que toda a gente tinha de ir ao quadro…what for??? I’m so sorry, my dear girl…). Quis explicar que por mais humilhante que seja, corrigir e pedir desculpa por erros cometidos é a melhor ponte que podemos construir…dei exemplos de palavras que aprendi no colégio com as alunas ( “asshole”, “awesome…”) e foi uma risota geral, quando pedi desculpa por tantas vezes ter escrito “homeworks” (quando a palavra só se usa no singular…enfim!!!) esperando com isso não ter prejudicado as vossas carreiras profissionais…

A segunda lição diz respeito às palavras de Steve Jobs (fundador da Apple), quando já  com um cancro e perto da fase terminal, foi homenageado numa Universidade e disse que só então conseguia compreender, ao olhar o passado, como tudo se relacionava e tinha contribuído para tudo quanto tinha conseguido realizar. Quando também eu olho para a minha juventude, adolescência, infância, a partir destes sinais externos de velhice – as minhas rugas, o peso, os brancos, etc…- encontro mil conexões que não param de me surpreender e maravilhar, tornando-me mais consciente do muito que tenho de agradecer a Deus…e contei-lhes várias coisas: uma certa viagem aos EUA em 31 de Agosto de 1978 (nunca mais lá voltei) com o meu filho mais velho, então com 5 anos, em que ficamos ao lado de um americano, Robert Nesnick (falecido há dois ou três anos), um homem com uma historia de vida incrível, que se converteu e quis vir viver em Portugal para compensar os erros passados e ajudar a divulgar a mensagem de Fátima e as vidas dos três pastorinhos….Também para ele esse dia foi a última vez que foi aos EUA, à sua terra natal (se alguém quiser conhecer a história completa, digam-me fatimafonsecan@gmail.com que eu envio-vos um texto mais pormenorizado). Foi esse encontro que me ajudou à minha própria “conversão” (as nossas vidas estão cheias delas) e me fez abrir o coração e a razão, quando 15 dias depois, conheci a minha amiga Maria Alice, numerária do Opus Dei, que me deu a conhecer horizontes e paisagens sobrenaturais nunca antes imaginadas… durante o estágio de professora de inglês e alemão no liceu Rainha D. Leonor. Sem todos esses encontros, só aparentemente casuais(!), nunca teria vindo parar ao Mira Rio, nem teria tido a querida e numerosa família que tenho…Depois contei como a morte da vossa antiga colega Marta Falcão (do ano da atual professora e ex-aluna Inês Salis Amaral), num trágico acidente de avião na Austrália, me fez compreender de forma claríssima que ser professora de Religião e preceptora  eram as minhas funções mais nobres e valiosas no colégio, porque na altura de o avião se despenhar, estou certa de que talvez alguma coisa das nossas muitas conversas sobre Fé lhe  pudessem ter servido de passaporte para a Eternidade. Não falei do suicídio de um aluno de outra escola no meu ano de estágio, nem da doença da Joana Sines Fernandes e da sua curta mas marcante passagem pelo colégio; também não falei de muitas outras coisas, como por ex. das nossas canções em inglês com letras particularmente tocantes como  “Day by day, oh dear Lord, three things I pray: see Thee more clearly, love Thee more dearly, follow Thee more nearly…”)…enfim, são muitos os acontecimentos do passado e muitas as pessoas com quem nos cruzamos na vida e nos vão marcando de forma indelével…a vida no colégio marcou-me profundamente, e sinto-me muito grata a todos por isso!

Por fim, a terceira e última lição tem a ver com uma frase de S. Paulo, numa das suas cartas, “Don’t let the Sun go down upon your wrath (não deixes que o sol se ponha sobre a tua ira)”, que encontrei em Londres, há muitos anos, e que se tornou como que um lema que não quero esquecer, porque como dizia S. João da Cruz “ no entardecer da vida seremos julgados pelo Amor”. Hoje, estou nesse entardecer e na curva rapidamente descendente, enquanto muitas de vocês estão em plena maturidade. Olho para trás, olho para o lado, olho para dentro e verifico que todos perdemos muito tempo com zangas, conflitos, desgostos, nós na garganta, coisas que nos são difíceis de perdoar, ou de pedir perdão, e que nos envenenam a vida familiar, profissional, etc, em vez de enchermos o nosso dia a dia de pequenos gestos que se fazem por Amor a Deus e ao próximo. S. Josemaria Escrivá e todos os outros santos, mais antigos e mais recentes, ensinam-nos que o único Caminho que leva à Verdade e à Vida Eterna é o do Amor.

Não disse mais nada de especial, que me lembre. Terei dito outras coisas normalíssimas, mas no final, foi comovente, irmos todas à Capela do Mira Rio 1 rezar uma breve oração e cantar uma música que a Terezinha Caldeira Coelho recordava dos tempo do colégio!

Há no entanto, uma frase de S. Josemaria, que gostaria de aqui deixar para todas, porque  me tocou profundamente em momentos em que tudo me cansava e me parecia tão difícil de aguentar… “ antigamente, descascavas batatas; agora, santificas-te, descascando batatas…”

Um beijo e um abraço cheio de amizade e votos de felicidades para todas! Até sempre e mais um grande Obrigado,


Fátima Fonseca